Seca severa do Solimões impacta economia na fronteira Brasil-Peru-Colômbia

Alexandro Pereira/Rede Amazônica
Mudanças climáticas intensificam os desafios na navegação e comércio da região
A atual crise da seca no Rio Solimões não é apenas um fenômeno natural, mas um reflexo das mudanças climáticas que afetam diretamente a vida de milhares de pessoas na trilha da fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Os impactos econômicos são profundos e dolorosos, agravados por uma escassez de água sem precedentes.
O município de Tabatinga, localizado na divisa do Brasil com a Colômbia e o Peru, enfrenta uma realidade alarmante: o Rio Solimões recuou, em média, 4 centímetros por dia, atingindo a alarmante marca de -2,06 metros. Na cheia de março, o rio superava 10 metros. Com a brusca descida do nível da água, as embarcações têm enfrentado enormes dificuldades para transportar mercadorias essenciais que abastecem as cidades da região. Este é um sinal claro de que a seca não é uma mera consequência das estações, mas uma evidência da luta constante contra as mudanças climáticas que afetam as comunidades ribeirinhas.
Os barqueiros, como Manoel Cardoso, se tornam exemplos de solidariedade em tempos difíceis. “Eu atraquei aqui com a ajuda dessa balsa, para ela também descarregar, porque se eu não encosto aqui, ela também não ia poder encostar,” disse Manoel, refletindo sobre a colaboração necessária no setor náutico. Entretanto, a realidade é dura. “Nenhum barco vem com a carga completa,” enfatiza, revelando que a resistência econômica dos trabalhadores está em jogo, pois toda mudança nos volumes de carga resulta em aumento nos preços do frete.
Durante a cheia, a viagem de balsa entre Manaus e Tabatinga costumava durar 11 dias. Agora, o mesmo percurso se estende por mais três dias, devido ao aumento de bancos de areia e à necessidade de navegar com cautela. Francisco dos Santos, um marinheiro local, acrescenta: “A navegação está muito difícil, temos que sondar para encontrar passagens seguras.”
O panorama é sombrio nos portos: tanto o porto público de Tabatinga quanto o principal porto da cidade colombiana de Letícia estão inoperantes. No lado peruano, na ilha de Santa Rosa, um deserto se formou onde antes havia um rio, deixando flutuantes encalhados e faixa de areia crescendo. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, esta é a pior seca do Solimões em 42 anos, e o futuro parece incerto.
Artur Matos, coordenador do sistema de alerta hidrológico, alerta que “as chuvas não estão chegando”, e se o padrão continuar, os níveis do rio poderão cair ainda mais nas próximas semanas.
A crise da seca no Rio Solimões destaca não apenas os desafios econômicos, mas também a necessidade urgente de ação em relação às mudanças climáticas. É imperativo que visitemos o impacto humano por trás dos números e que nossas vozes se unam em defesa de um futuro sustentável. Estejamos atentos: as decisões que tomamos hoje moldarão a realidade das gerações futuras.



